terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Fragmento retirado de um dia morto.

É o vazio. É o vazio inerente à vida que me despedaça. Essa inanição pulsando no peito como se fosse algo. Pretendendo ser algo. Mas não é nada. É o nada. É o vazio. As horas, os dias, as vozes - tudo soa oco. Oco como a realidade. Retiro do bolso um rolo de papel e anoto: "Quanto mais se tem, mais se quer. Quanto mais se descobre, menos se compreende. Quanto maior é a dose de sabedoria, maior também é a dose de ignorância. O frasco da lucidez é o frasco da loucura. O homem sábio é um homem duplamente tolo. Sua duplicidade consiste na inverossimilhança do mundo. Quanto maior é o seu passo em direção ao objeto, maior é o passo do objeto em seu recuo. Algumas vezes quando pensa ter alcançado o objeto, o objeto então se desfaz na sua frente como um punhado de pó levado pelo vento. O homem se olha em algum reflexo e se descobre uma espécie de bobo da corte. O objeto não se permite conhecer. Descobre que o objeto jogou com ele o tempo todo e que o mundo não passa de um tabuleiro sordidamente ordenado rumo à derrota dos homens." É o vazio da vida que me despedaça.


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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Somewhere in hell, he types still.

Um vasto. Um incrivelmente vasto e longínquo deserto - eis o futuro diante de mim. Minhas pinceladas alcançam pequenas distâncias e o restante permanece pálido, pálido e cru. A noite tomba das alturas e eu me vejo cada vez mais engendrado nessa discórdia. Vou seguindo, em sonhos ou acordado, vou seguindo e dizendo não à coisas que me parecem absurdamente incoerentes. É como se já me bastasse a própria vida e sua incongruência intrínseca e de resto eu não suportasse mais a tamanha desunião de tudo. É vasto. É incrivelmente vasto essa lacuna no peito da noite. Tento andar sobre a água. Tento curar cegos. Tento ressuscitar os mortos, mas tudo que obtenho são lembranças, são névoas. E a fumaça do cigarro forma formas diante de mim e diante dessas formas eu vejo os rostos, os rostos que amei. É quando me detenho e fechos os olhos, abro-os novamente, olho novamente e fixamente para as formas. Soltas no ar, como balões coloridos. Vejo uma criança suja sair de repente de dentro do meu estômago e correr em direção às formas. As formas se perdem, somem no ar ao toque da criança, somem para sempre. A criança se volta e me olha com uma face chorosa, anda cabisbaixa para frente e depois corre em direção ao meu abraço aberto e se espatifa em sombras sobre o meu peito. E então vem a vertigem novamente. Vem cavalgando os deuses e se volta contra mim com seu exército de pequenas verdades. Armaduras de aço. Lanças e escudos. Estão todas preparadas para o fim do mundo. Mas eu permaneço imóvel. Fixo como um céu. Sequer pisco os olhos, sequer respiro. Só faço olhar fixamente para as formas. Só faço frustrar meu peito com a vasta verdade das coisas. A vasta verdade de que a realidade é impetuosa e nossa mente uma farsante. E lá do fundo, no lugar íntimo, que brotam as sementes que crescem em um passe de mágica. Crescem e ganham a realidade. Tomam para si formas e mais uma vez caiem no chão podres e mortas. A realidade é uma árvore que não dá frutos, e os nossos frutos já nascem maduros demais para a umbrosa realidade. Eis o futuro diante de mim e sobre ele eu ouso caminhar. caminho em busca do tempo, da vida, do útero.


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sábado, 2 de janeiro de 2010

Crime & Castigo - Fragmento V


"A mentira é o único privilégio humano perante todos os organismos. Quem mente chega à verdade! Minto, por isso sou um ser humano. Nunca se chegou a nenhuma verdade sem antes haver mentido de antemão quatorze, e talvez até cento e quatorze vezes, e isso é uma espécie de honra; mas nós não somos capazes nem de mentir com inteligência! Mente para mim, mas mente a teu modo, e então eu te dou um beijo. Mentir a seu modo é quase melhor do que falar a verdade à moda alheia; no primeiro caso és um ser humano, no segundo, não passas de um pássaro! A verdade não foge e a vida a gente pode segurar com pregos; exemplos houve. E hoje, o que nós fazemos? Todos nós, todos sem exceção, no que se refere à ciência, ao desenvolvimento, ao pensamento, aos inventos, aos ideais, aos desejos, ao liberalismo, à razão, à experiência e tudo, tudo, tudo, tudo, ainda estamos na primeira classe preparatória do colégio! Nós nos contentamos em viver da inteligência alheia - e nos impregnamos! Não é verdade? Não é verdade o que estou falando? Não é verdade?"




Dostoievski.



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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

There's a fade.

A família que lhe falta. A luz que lhe falta. O prazer que lhe falta. O prazer à vida. Há o fio que. Há o fio que nos. Há o fio que nos une. Há o nó. Há o nó na garganta. Palavra engarrafada. Há o fado. Há a dor que irrompe. Há a dor que irrompe do fluxo. Do fluxo contínuo da vida há a dor que irrompe. Há a dor que irrompe do fluxo contínuo da vida e arrasta, e arrasta mundo a fora nossa história. Que somos? Que somos além do resto, do resto da chuva? Que somos? Que somos além de fins? Fins. Fins. Fins.

Ferida Negra.
Tarde Negra.
Pássaros Negros.

O olho do pirata.

Quem me tirou. Quem me tirou enquanto eu dormia. Quem me tirou enquanto eu dormia e me arrastou para fora de meu corpo. Quem me tirou agora sabes. Agora quem me tirou sabes. Sabes que eu não sou nada além de meu corpo. Doença que voa. Que voa através do dia, uma doença. Há em ti o indescritível. Há em mim o inominável. Feitos um contra o outro. Feitos um contra o outro. A família que me falta. A luz que me falta. O prazer que me falta. O prazer à vida. Há o fio que. Há o fio que nos. Há o fio que nos une.

Filtro de outro.
Filtro de ouro que revela a geometria insuportável.
Há a geometria insuportável do mundo.



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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Infâmia - 1961





"Eu serei o seu espelho; Não serei o seu reflexo, mas serei o seu engano." - Baudrillard
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Céu em chamas.

A noite dentro do gomo das mãos e as estrelas girando ao redor dos olhos, auréolas perniciosas. Estátua grega que seduz os miolos e faz a cabeça erguer-se além de sua possibilidade, fazendo gemer o sangue, fazendo o músculo quebrar como uma haste e a flor rubra cair sobre o chão em chamas. É o amor cujo nome verdadeiro é flecha, é o coração cujo nome verdadeiro é alvo, é o cúpido bastardo que engole vermes para satisfazer os amantes alucinados. Somos eu e você olhando o mundo e retraídos com uma vontade louca de esquecer sabe-se lá o que. Tua mão pega a minha e juntas formam um casal, saem as duas cavalgando o ar e aqui ficamos sem os nossos membros. O amor é uma idéia e não precisamos do físico para satisfazê-lo - não é isso que ele nos diz? Ele, o grande Deus do amor que a tudo ama e a tudo fere com suas patas invisíveis e suas mil línguas salgadas que roçam as nuvens e fazem do firmamento uma selva de fogo e de pedras. E agora vamos! Vamos caminhar até o limite! Até o horizonte! Até encontrarmos a parede boreal que bloqueia nossa passagem e lá morrermos como piratas que naufragam no oceano e são enterrados no mar junto aos seus tesouros. Somos criminosos inatos e nosso assassínio foi cometido há muito tempo, antes de nós. E o besouro verde voa como uma jóia belíssima ao nosso redor, e as moscas são pedras negras que levitam no ar e nos olham, nos denunciam, nos abandonam junto a nossa beleza para depois cairmos no poço do Narciso e lá ficar a deformar e admirar nossa própria perda.


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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Os Moedeiros Falsos - Fragmento IV


"Eu nunca sou apenas aquilo que creio ser - e isto varia o tempo todo, de forma que, muitas vezes, se eu não estivesse lá para aproximá-los, meu ser da manhã não reconheceria o da noite. Não há nada mais diferente de mim do que eu mesmo. [...] Meu coração só bate por simpatia; vivo apenas por outrem; por procuração, poderia dizer, por núpcias, e é quando saio de mim mesmo para me tornar qualquer um que sinto viver mais intensamente que nunca."






André Gide.



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