terça-feira, 3 de novembro de 2009

O Amante - Fragmento III


"Era preciso avisar as pessoas dessas coisas. Informar que a imortalidade é mortal, que pode morrer, que aconteceu e ainda acontece. Que ela não se mostra enquanto tal, nunca, que ela é a duplicidade absoluta. Que ela não existe no detalhe, mas apenas como princípio. Que algumas pessoas podem acolher essa presença da imortalidade, desde que não se deem conta disso. Assim como algumas outras pessoas podem perceber essa presença nos demais, com a mesma condição, desde que não se deem conta disso. Que a vida é imortal enquanto vive, enquanto está em vida. Que a imortalidade não é uma questão de mais ou menos tempo, não é uma questão de imortalidade, é uma questão de alguma outra coisa que continua desconhecida. Que é tão falso dizer que ela não tem começo nem fim quanto dizer que ela começa e acaba com a vida do espírito, pois é do espírito que ela participa e da busca do vento. Olhem as areias mortas dos desertos, o corpo morto das crianças: a imortalidade não passa por ali, ela para e contorna."



Marguerite Duras.
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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Hey, I´m just scared.

Quem me trouxe até aqui não foi o vento, não foi o acaso e não foi o destino. Quem me trouxe até aqui foi eu mesmo. Eu e esse abismo que se encontra agora coberto por um manto tênue de seda e estrelas, estrelas que brilham em nossos olhos nesse exato momento; revelando a imensidão de nossas procuras e perdas. Não quero revelar o nome disso aqui que sinto agora. Não, não quero. Me é assustador demais; É preciso coragem para retirar o véu obscuro e sorumbático que cobre o rosto da coisa. Sei que é aquele meu antigo amigo; é aquela carência da infância que soa os bandolins da esperança em nossas varandas. Eu, deitado na grama, observando os planetas e me enlouquecendo com as constelações internas que insistem em se mostrarem através de toda a beleza e a obscuridade das escolhas da vida. Preciso manter os pés no chão que eu criei para andar. Preciso olhar para a coisa e revelar nela aquilo que jamais poderá ser levado adiante. É preciso estar atento; é preciso escutar o alarme interno. É preciso "matar o bebê no berço" antes que ele cresça e se torna o assassino dos grandes poetas. É preciso saber olhar com aqueles olhos que invadem as almas alheias. Por enquanto, meu amor, só sei do que não é preciso, mas a precisão das coisas carrega um enfado tão longo e contínuo para se pensar, que é por isso que preferimos as falsas esperanças. Criamos momentos que não existem, criamos alegrias que brotam de nós e vão para nós mesmos. Me alimento de minha própria fofura. Minha insegurança é a mais falsa das deusas que carrego no peito. Ela é uma cartomante falaciosa. Ela não me revela futuros que estão logo após o primeiro passo, mas sim futuros que estão logo após o primeiro tremor da pele. Carrego em mim o mal de ser romântico. Carrego em mim a praga ocidental daquela saudade eterna. Carrego em mim a esperança mesclada com uma desesperança que, insuportavelmente, coexistem numa única esfera interna, em um planeta distante dentro de mim vive aquela chama humana que resiste aos tempos sombrios da vida. Cheguei até aqui e daqui é preciso partir. Mas é preciso também levar no pensamento a síntese do que se foi vivido e, friamente, levar a matemática antiga para os dedos e somar os dias e as noites, e somar as coisas que foram feitas e as coisas que foram desfeitas, e somar aquilo que foi dito e aquilo que não foi dito; a vida exige uma precisão que dói. Mas é dessa precisão que preciso. Preciso da segurança. Mas não daquela segurança enfadonha, e sim aquela segurança viva. Por enquanto, tateio o escuro em busca de uma mão para me levar até o fim dessa empreitada que foi erguida em prol da existência humana; exatamente em prol da minha existência. A vida que, até então, só se pode ser vivida uma única vez não valeria tanto a pena se não nos permitíssemos tanto. Mas a permissão não é a ignorância de ser levado pelo caminho das estátuas pálidas e dos quadros sem profundidade de certos caminhos. A permissão é algo que revela, é algo que permite o mundo se mover dentro de nós. A permissão é estar preparado para girar a máquina insuportável dos dias vindouros e registrar piamente as faíscas dos dias de outrora. A permissão é viver, mas acima de tudo, a permissão é deixar que as coisas vivam também. Deixar tudo respirar o próprio oxigênio. É preciso não ter pressa, pois o mundo gira sem as nossas mãos mesmo. É só olhar o tempo abrir suas engrenagens, olhar no fundo da máquina e depois, como num susto, quedar em um canto apavorado com o derradeiro e lúcido fechar de portas do tempo: É então que começa aquilo. Aqueles acontecimentos e aquelas velocidades.



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domingo, 18 de outubro de 2009

Grandes Esperanças

É algo no peito. É algo que começa a pulsar como se nunca houvesse pulsado. É algo que retorna de um antigo estado de latência e solta um grito que, silencioso e agudo como só os gritos podem ser, penetra a superfície pálida do mundo e reduz tudo a um grande quartel de cores explosivas. Um exército de pequenos sonhadores cavalgam os pensamentos e levam-me até algo que criei para amar. Esse algo está dentro de mim muito antes de saber que eu mesmo existia. Esse algo está lá antes do tempo, antes da aurora da vida. E estará no crepúsculo dela. É algo que não sei dizer o nome, porque não sei se há um nome para tão grande coisa diante de mim. O horror é olhar para isto e reconhecer isto como meu, como algo que está dentro de mim, mas que pertence irremediavelmente a você, quem nem sei quem é. Já escuto seus ruídos. Já sinto o cheiro de algo que meu desejo diz ser você. Daqui, onde eu estou parado, diante do mundo, já posso ver seu brilho milhas e milhas de distância. Você está brilhando. Longe, você brilha. No fim da estrada seu nome já começa a ser escrito no ar. Seu sol: meu Deus! Você trouxe o seu próprio sol e sim, você diz, que ele, o seu sol, é todo meu. Todo meu. Um sol. Dois sóis. Dois de mim. Dois de você. Nós. E então o mundo se fecha e eu só vejo o seu rosto na escuridão. Seu rosto que canta uma canção tão sedutora. A flauta de seus lábios emiti a música que esteve tocando dentro de meus olhos toda a minha vida. Você trouxe isso de volta. Isso que estava em mim, que está em mim, que estará em mim, você trouxe isso para a superfície pálida do mundo. Te desejo como um morto deseja viver novamente. Te desejo como um furacão deseja engolir um país inteiro. Sua imagem me consome e me aflora para o mundo. Estou pronto, estou lapidado até o último nervo de mim. Estou aqui e estarei aí, dentro desse algo que você chama de amor. Acabei de desenterrar meu futuro e ele brilha tanto dentro do gomo de minhas mãos. Eu não sei o que fazer com tanta esperança que existe agora dentro desse momento que vivo. Tenho medo que tudo se quebre como a vida se quebra ao final de tudo. Tenho medo de suas palavras, que me são tão nuas que de medo então corro da nudez delas. Nunca havia visto tanta transparência em minha vida. Nunca havia visto uma lua tão despida de seus mantos como seu olhar pairando diante dos meus. Como um olho que se despregou do rosto que ocupou a vida inteira, seu olho voa longe e vê, como quem vê um espírito, o desejo transferido no mundo dos homens. Somos espectros. Somos ventos que chacoalham os galhos da vida. Estamos a sós, nesse momento, um desejando permear o outro. Um desejando sentir o que é a vida para o outro. Sim, nós queremos ser salvos. Salvos de que? Não sei, mas queremos. E agora, como um último golpe, como uma última graça, como uma última estrela que brilha num patamar longe de nós, eu te digo também despido e com sinceridade: Tu que vens de longe, Tu que vens de um sonho meu, Tu que vens de dentro das minhas águas pantanosas, te digo como quem diz a última palavra da vida: É você o meu Messias!


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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A vida não é um por exemplo.

Suas palavras têm a duração de um dia. Elas não vão além de um dia. E eu? eu vou, vou além e aquém de um dia. Talvez esse seja um defeito ou uma qualidade, não sei. O fato é que eu estou pregado como um inseto em uma teia de aranha. Pregado em certas palavras. Estou lá no centro de suas vibrações, esperando para ser comido por aquelas palavras. Palavras ditas no calor espumante de um fim de noite. Um calor mais espumante do que aquele que há no centro da terra. O calor que senti foi importante, porque foi um maldito calor humano. Um fogo que saiu de seus olhos e queimou os meus olhos lá no escuro de nós. E você disse todas as palavras que eu esperava que dissesse, e você me abraçou com a força de um leão. Me derrubou dentro de seu corpo e me fez perder a luz. Eu não queria a luz, talvez nunca quis. Talvez estivesse cansado de enxergar e quisesse apenas estar cego dentro do seu escuro. Ser guiado pelos sons das palavras ondulantes que você me dizia. Como eu sabia, meu Deus! Como eu sabia que aquele momento seria em vão. Porque ele não comportava destino, não comportava nem passado e nem futuro, era apenas um recorte de algum tempo que nunca existiu e que jamais existirá. Era um momento inexistente que incessantemente eu fabriquei para o meu deleite e terror. Era uma pequena luz que se acendia com a força do meu giro. Girava feito um bailarino sobre o momento, para que aquele momento faiscasse, e foi apenas isso: faíscas. Então eu me volto para o seu rosto e lhe digo, caro amigo: Não estou a fim de ser mais o menino maduro e amigável. Estou a fim de ser louco, ou melhor, estou a fim de assumir o que sempre fui: um louco! E agora estou bem cansado de toda sanidade falsa que permeia as relações humanas. Estou a fim é de arder no fogo da minha loucura. Estou a fim de lançar maldições contra seu destino e seu corpo. Estou a fim de gritar seu nome pelo ar e explodir estrelas com todo a força sonora que repercutirá de meu grito, que nem por isso será menos silencioso. Quero rasgar seus olhos e macular sua pele, sua pele falsa. Sua pele quero macular. Quero também destruir seus sonhos, explodir um a um como quem explode balões num fim de festa. Quero atirar meus cães contra você. Quero detonar bombas nos vãos de teus pensamentos e fazer você sacudir e implorar pela calmaria de meus braços. Mas não, não! Quando tudo for um mar calmo, eu serei a tempestade. Quando tudo for sorrisos, eu serei os gritos, serei milhões de loucos vagando pelo seu quarto. Cansei da sanidade. Agora quero provar do líquido da loucura. Beber caixas e caixas do licor desse amor que consome as minhas entranhas e queima meus ossos. Beber dele para que ele se esgote no mundo e se perca no umbral de toda a perdição. Quero esquecer tudo, mas sei que antes do esquecimento total será necessário a rememoração total de todas as luzes que piamente desejo apagar. Suma de minha vida, minha dor! Suma de meus sonhos e de meus pensamentos. Suma de minhas dissimulações. Suma dos meus nervos ensandecidos do suor noturno que ainda se embebeda pelas palavras outrora ditas agora perdidas. Suma! E quando gritei e recriminei tudo o que você havia feito contra mim, logo me lembrei que você não fez absolutamente nada. Tudo que foi feito foi eu quem o fiz. Foi eu quem foi lá e te ergueu de teus pesadelos vivos e te levei como um pássaro leva um graveto no bico para tua casa na esperança de construir um ninho. Foi eu quem me machuquei o tempo todo. Sempre soube que suas palavras têm a duração de um dia. Sempre soube que não devo confiar em um mísero ponto de exclamação que você emitir. Sua voz é névoa e se dissipa com a mudança do tempo. Suas promessas entrecortadas são sonhos líquidos que escorrem por entre os meus dedos. Aprendi que tudo o que você disser até então é para ser descartado por mim como algo verdadeiro, pois você não sabe o que diz, ou talvez saiba, mas isso seria perversão demais para se imaginar. Odeio você mas odeio muito mais a mim mesmo por não saber como me livrar de algo que sequer existe no mundo real. O fato é que sequer sei se existo no mundo real ou se sou apenas uma ilusão de mim mesmo. Um personagem criado para interpretar essa mente que lateja em busca de um lugar para morar. A vida não é um por exemplo, mas é dos exemplos que você vive. E a perda para mim é tão intensa e para você e só uma perda, e isso foi o meu sonho quem me disse. E me disse certo. Haverá um oceano dentro de mim, eu sei que haverá, e eu vou cruzá-lo até o fim de meus dias. Essas palavras para você são apenas um emaranhado de tentativas que não significaram nada, eu sei. No momento sinto uma vertigem e minha vontade é a de mergulhar nesse texto que escrevo e sumir do mundo. Mas isso não é solução para nada. Isso é apenas sono e cansaço. O menino maduro se despede agora e quem chega das trevas é o louco cansado de esperar por sua vez para agir com insanidade no mundo dos dissimulados seres humanos saudáveis. Odeio você.


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sábado, 3 de outubro de 2009

O Estrangeiro - Fragmento II


" O suor acumulado nas sobrancelhas correu de repente pelas pálpebras, recobrindo-as com um véu morno e espesso. Meus olhos ficaram cegos por trás desta cortina de lágrimas e de sal. Sentia apenas os címbalos do sol na testa e, de modo difuso, a lâmina brilhante da faca sempre diante de mim. Esta espada incandescente corroía as pestanas e penetrava meus olhos doloridos. Foi então que tudo vacilou. O mar trouxe um sopro espesso e ardente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão deixando chover fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver. O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, no barulho ao mesm tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então atirei quatro vezes ainda num corpo inerte em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça."



Albert Camus.



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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O Nome Científico Da Formiga



No meu caderno de aluno
Na minha carteira e nas árvores
Nos areais e na neve
Escrevo teu nome
Em todas as páginas brancas
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome
Sobre as imagens douradas
Nos estandartes guerreiros
Tal como na coroa dos reis
Escrevo teu nome
Nas selvas e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No eco da minha infância
Escrevo teu nome
Nas maravilhas da noite
No pão branco dos dias
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome
Nos meus farrapos de azul
No pântano sol alterado
No lago luar vivente
Escrevo teu nome
Nos campos do horizonte
Sobre umas asas de pássaro
Sobre o moinho das sombras
Escrevo teu nome
Paul Éluard - Liberté
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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Winter Session

O inverno chega dentro de mim. O frio intenso, a neve que bloqueia as passagens e faz os sentimentos se aglutinarem e formarem um canhão, pronto a ser disparado em direção ao mistério das direções. O peito se afoga dentro dele mesmo, no lago da secreta e indecifrável solidão humana. Eu sei, a vida é perturbadora quando questionada de frente. A verdade da vida escandaliza os homens e esses com a moral danificada correm até os penhascos e ensaiam a morte durante séculos. Querem ser donos da própria hora. Quando descrevo o frio visceral que assola os pulmões de meu corpo também descrevo a universalidade das agitações humanas. Somos tão iguais nessas noites, percorremos o obscuro olhar das estrelas e nos deparamos com nossas palavras que são mistérios, lendas e astros. E quando olho para o céu noturno completamente salpicada do brilho que me é por excelência distante, me deparo também com minha pequenez e meu grito é mudo nessas veredas. Mas é na distância de mim mesmo que me encontro melhor e me conheço de forma completa. É um mergulho dentro das águas encefálicas do espírito e é também uma rebelião contra os sentidos, que são tão verdadeiros e práticos que nós, complexos por herança, confundimos os sentidos dos sentidos. O olhar de um humano é também o olhar de uma multidão. A pergunta de um humano é também a pergunta de milhões. E a vida que é absurda e é uma pequena luz entre duas escuridões se agita como um animal feroz e se rebela contra nós. Mas talvez somos nós quem não sabemos como lhe dar com ela. E o inverno é também uma necessidade. Precisamos sentir o frio para conhecer os prazeres dele e também reconhecer os prazeres de outrora, das antigas estações, dos dias que um dia foram e não são mais. No mundo tudo que é, é somente uma vez. É na ausência de um elemento que lhe damos mais valor, porque quando ele está por perto é como parte da paisagem e por isso também banal, mas quando ele é retirado se torna precioso porque perdido. O paraíso . Nós sabemos em nosso secreto pulsar de pensamentos que os valores mais preciosos estão nas coisas que já se foram. Talvez porque precisemos de muito aprendizado para separar os elementos. Retirar o véu banal das entidades e revelar o brilho singular que cada uma tem. É preciso aprender a viver no inverno e é preciso aprender a amar e abraçar a nós mesmos como se amassemos e abraçassemos algum outro; porque é na alteridade que encontramos o próprio valor da vida. Precisamos ser outros para então sermos nós mesmos. Precisamos dos Invernos para então reconhecer o valor da pele e dos músculos. O valor de nós mesmos, que trememos em busca de recordar a baforada morna da boca do sol. Em busca de recordar o espanto que é acordar e se descobrir vivo, mais uma vez. Repetir a saída do útero e o encontro com o mundo por vezes indeterminadas.




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