sábado, 24 de janeiro de 2009

Pequenos Hábitos



Os extremos de um ser humano são lugares umbrosos para se fazerem uma visita, porém, são lugares necessários para que possamos entender o nosso próprio caos. O que falta no mundo não é água e nem paz, muito menos homens - como as mulheres de plástico vem afirmando aos montes - mas sim um pouco de lucidez. Um pouco é muito quando não se tem nada. A lucidez é como a energia elétrica: quando está em uso, podemos andar pela casa, pelas ruas e pelas praças iluminados por ela, e iluminação nessa era em que vivemos tem o estranho sinônimo de segurança, não esbarramos em árvores, não derrubamos nada e não atropelamos pessoas nas ruas, pois a luz é a matéria prima das cores e das atitudes lúcidas. Quando falta luz, somos obrigados a acendermos velas, que muitas vezes não são o suficiente para iluminar caminhos, e ninguém gosta de carregar velas, ninguém gosta de carregar nenhum peso em se tratando de descobrir caminhos. A luz falta, nós tateamos no escuro, derrubamos coisas e pessoas, e ambos quebram. Não há conserto para o que está quebrado, assim como não há cura para o que está morto. A lucidez é luz. E quando estamos iluminados, estamos lúcidos. A falta de lucidez é a escuridão, e dentro da escuridão surgem outros escuros; o útero do desequilíbrio mental que causa a ferida secular no mundo. Sem a lucidez estamos perdidos, criaturas que tateiam no escuro, em busca de uma parede para se apoiar. Não deixar que a lucidez se esvazie como uma balão furado deveria ser lei, pois uma vez que se vai, desperta aqueles pequenos demônios que vivem no subterrâneo de nossa pele, e uma vez despertos, é quando começa o caos.
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2 comentários:

Anônimo disse...

Um digno representante do Siècle des Lumières.
Desde o seculo XVII que falam nisso. Que paraiso seria se hoje (como pensavam os pensadores da epoca) tivessemos somente gente assim.
Pelo menos, o movimento ainda esta brilhantemente vivo com pessoas que agem/pensam dessa maneira. Immanuel Kant (e eu!) ficamos muito felizes contigo! eheheh

Haroldo de Campos disse...

Peculiar e onírico!