terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Reminiscentia

"Há duas maneiras de não sofrer. A primeira parece fácil para a maioria das pessoas e consiste em aliar-se ao inferno até não mais senti-lo. A segunda é difícil e exige aprendizado contínuo e constante e consiste em saber quem e o quê, no meio do inferno, que não é inferno"

Há dias em que você fica mais suscetível às reminiscências. É como se o seu corpo se tornasse um aspirador de passados remotos, e concomitantemente um projetor de futuros inexistentes. Que é o futuro senão uma bocarra carniceira que destrói o presente e o cristaliza em passado? Meu passado hoje se postou diante de mim como um jogo de espelhos, um truque egípcio de resgatar imagens da superfície para o emaranhado confuso de raízes do presente. "O futuro é brilhante!" - eles dizem. Que futuro? Não existe futuro! Brilhante mesmo é o presente que em toda a sua inflexibilidade se torna um milagre até mesmo para os olhos mais agnósticos. Eu não entendo nada sobre o jogo do tempo, por isso, mantenho meu corpo fora do tabuleiro antigo de xadrez. Com isso eu ajo como se houvesse escolha, como se algum acidente fosse provocar o fim do tempo e tudo pararia de rodar e a eternidade flutuaria como uma bolha iridescente diante de nós. Mas nenhuma explosão pode parar as engrenagens desse velho mundo, pois elas são feitas de nuvens, e como todos sabem, nuvens são indestrutíveis.

O que eu sinto hoje é como uma vontade louca de se tornar um personagem de filme science-fiction e achar pelo caminho algum buraco-de-minhoca que me leve para um lugar distante chamado "meu passado". Isso é uma tolice tremenda, eu reconheço, mas é apenas as faíscas de tolices maiores que acompanham a condição de ser um animal pensante. "O único defeito do homem é pensar." Eu adoraria contratar um casal de detetives existencialistas para investigar a minha verdade, tal como o fez o personagem Albert Markovski no filme "I Love Huckabees". Para que eles encontrassem na minha rotina o vírus que evoca meu passado como se esse fosse uma espécie de deus.

Penso nas pessoas que já se foram, e sinto-me só por dentro, desolado e desértico, cheio de cactos e partículas finas de vaziez. Alguns pequenos terremotos acontecem no fluxo desses pensamentos, mas nenhum é o suficiente para interromper essa canalização involuntária de imagens mortas do passado. Sinto-me triste hoje, mas a minha tristeza carrega um toque de limão que deixa tudo mais sarcástico, que faz da infelicidade uma grande piada. Sinto saudades de um passado como todos os outros companheiros da minha espécie. Sinto falta dele como se lá eu fosse feliz e não soubesse. O lugar-comum utilizado por todos: eu era feliz e não sabia. "Há-há-há. Sério isso?" "Não, não é sério. é o efeito colateral das reminiscências, elas provocam isso sabia?" "Isso o que?" "Isso de achar que o presente é um grande engano e que somente o passado é valioso!" "Que coisa!" "Mas estou melhor agora, pois lembrei da passagem de um livro que li a pouco e que dizia "Deixe o passado como está; ele nada poderá fazer por você"


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3 comentários:

alex.n disse...

Anacrônico(huahau) e atemporal!

"sinto saudades do meu pai...
sinto saudades de tudo. Digo isso porq tenho medo que um dia vc também me esqueça. Dora" (Central do Brasil)

Haroldo de Campos disse...

C'est un fabuleux moment de passer!

Anônimo disse...

"O único defeito do homem é pensar." Otimo!!!